Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2005

2ª Visita da SosAnimal à Aboim...

aboim.jpg


O entusiasmo desta acção começou no dia em que enviei o primeiro e-mail para a divulgação da angariação das coisas… no mesmo dia houve feedback de vários lados, e diversas pessoas ficaram motivadas para ajudar … já não falando no grupo do costume, todos participaram, o carro da Cândida passou a transporte de carga diário, as nossas casas, os armazéns do chiado, e uma espécie de alegria e sensação de preenchimento tomou conta de nós… Se surgia um entrave, facilmente era ultrapassado, com disponibilidade, com a falinha mansa e o sorriso da Cristina, com a determinação da Teresa, com a ajuda de tantos amigos, colegas e até desconhecidos que se uniram a esta causa e tornaram todas as tarefas mais fáceis…
Cada telefonema que recebia, cada e-mail que trocava enchia-me a alma de vontade de fazer mais, de passar depressa os dias para seguirmos viagem, para encontrar o pequeno Tomás, para sonhar com eles que tudo pode ser melhor…
Na última noite, a euforia tomou conta da nossa casa, caixas, fitas, Luís e Lígia a acartar, Bartô a encaixotar e a organizar por sapatinhos, brinquedos, etc., era a loucura, regada de euforia e excitação! O cansaço era destroçado por sorrisos largos e carinhos! Tudo vale a pena quando a alma não é pequena!
A janela do escritório servia de acesso aos muitos donativos que ainda chegavam naquela noite, o monte de coisas que tínhamos deixou o António perplexo, também ele carregado de sacos que arranjou “melgando” as vizinhas! Todos contribuíram, todos participaram…
No fim dos trabalhos de “encaixotamento”, por volta das 3.00 da manhã, no meio das caixas, olhei para ti e pensei que era tão feliz, tão afortunada, que tinha tudo, e que gostava de dividir o que sinto cá dentro com o mundo, gostava que todos pudessem ser felizes, que todos pudesse ser amados e amar…Exaustos, mas cheios de alegria olhamos felizes para o monte de caixas empilhadas pela casa, á espera de serem abertas e distribuídas para rasgarem sorrisos naquelas carinhas, que têm tão pouco e dão tanto!
Detesto levantar cedo, mas mal tocou o despertador, saltei da cama… É hoje! Carregamos a camioneta gentilmente cedida pela Galamas, e seguimos para o próximo carregamento na casa da Cândida, todos contentes, sem sono, sem birra matinal, sem frio… porque o calor da alegria e da felicidade irradiava pelos nossos poros, e aquecia tudo, os corpos, os sorrisos, as almas e até o mundo… pelo menos o nosso…
E assim partiu a carrinha rumo a Faro!
Antes de Faro, ainda paramos em Beja com os carros atolados de ração e outras coisas que tanta falta fazem por aquelas bandas, um canil Municipal com uma associação de protecção animal, o Cantinho dos Animais… como tantas outras, cheias de boa vontade, com muitos animais e poucos recursos! A nossa chegada veio encher de alegria aquela manhã, depressa distribuímos ração e miminhos pelos animais do pátio, oriundos das ruas, abandonados, esquecidos à sua própria sorte por pessoas, que o fazem impunemente e não sentem absolutamente nada pelo seu acto, que na maioria das vezes resulta em sofrimento, atropelamentos, doenças e consequentemente morte dos animais.
Aquela manhã foi diferente, tiveram comidinha e festinhas! No meio do grupo estava uma cachorrinha, com 4 meses, doida de alegria, comia, saltava, emaranhava por mim acima, corria! Estava feliz! Depois de descarregada a carga e distribuída alguma da ração, chegou a hora de seguir viagem, e todos aqueles olhinhos, ficaram por trás da rede a olhar, sem perceber o porquê de termos de ir embora, sem perceber o porquê de estar ali, sem perceber jamais o porquê de tudo ter de ser assim, tão triste tão difícil…
Era tudo tão mais fácil, se cada um de nós, respeitasse o que nos rodeia, a natureza, os animais, os outros… se cada um de nós fizesse alguma coisa, por pequena que fosse para ajudar os que precisam, se cada um de nós, pudesse dispensar uma ideia em prol dos outros, uma hora, um sorriso, uma mão… se cada um de nós, conseguisse dispensar uma pequena parte da sorte que tem, em ter basicamente tudo, e dar aqueles que têm basicamente nada… tudo seria com certeza mais fácil, menos penoso, menos injusto…
Se ao menos nos nossos rostos vivessem sorrisos, em vez de feições sisudas, se ao menos nos nossos corações vivesse a esperança em vez da aceitação do que está errado passivamente… se ao menos, fossemos na verdade humanos uns para os outros… quem sabe, talvez, só talvez, fosse bem mais fácil…
Quando chegámos à Aboim (Faro), o cordão de gente para descarregar parecia infinito… grandes e pequenos, todos em equipa descarregavam as caixas com sorrisos e com uma certeza, que hoje, ali, ia ser diferente, e com certeza iria fazer diferença nas pequenas mas já muito difíceis vidas que nos aguardavam dentro da casa cor-de-rosa!
As duas horas que antecederam à entrada na instituição, pareceram infinitas… entre sorrisos e biberões de leite para tentar salvar uma ninhada de cadelinhas que nos acompanharam nesta aventura, o tempo teimava em não passar, e as brincadeiras do Pedro Cortes eram um bálsamo… todos sorriam, contentes, com a tal sensação de conforto, que embora aquela dia fosse uma gota no oceano, certamente ajudaria a encher o copo de alguma criança… mas no fundo todos pensavam no mesmo, nos pequeninos, que estavam na casa cor-de-rosa! Eu pensava no Tomás… pensava que o iria reencontrar, pensava se ele me iria reconhecer, se já falava melhor, se ainda gostava de cavalos… se ainda queria vir para a minha casa como tinha pedido em Agosto… Relembrava aquele sorriso, aquele cheirinho, que ficou marcado em mim, que me fez ter vontade de ser mamã, que tornou pequena a minha existência de menina mimada pela família, pelos amigos, por todos em geral… Sem dúvida que o pequeno Tomás mudou algo em mim… Abriu uma portinha que estava fechada…
Mal entramos corri para as salas onde estavam os meninos da idade dele, carinhas já conhecidas, muitas outras carinhas lindas novas, mas a do Tomás… não conseguia encontrar, até aquele momento, o facto de ele já não lá estar não passava pela minha cabeça, ou melhor não o tinha como verdade ou possibilidade, corremos tudo, uns ficaram para trás, outros corriam comigo… até que numa porta, perguntei por um menino, chamado Tomás, com 3 anos… Foi então que nos olhos daquela senhora que vive no meios deles, que lhes dá comida, colo, banho… eu vi que o que tinha para me dizer, não era o que eu queria ouvir! Ele já não estava lá… tinha sido entregue aos avós… não ouvi mais nada… disse o que tinha descoberto aos amigos que vinham comigo e sentiam o que se passava dentro de mim, não sei se fico feliz por estar com família dele, se fico destroçada porque já não pode ficar comigo… fugi para os teus braços, e chorei… Já não podemos ser pais do Tomás… ele foi embora!!!! Disseste-me que existiam tantos meninos no mundo a precisar de mãe, se não era o Tomás, seria outro, e que tínhamos de ficar felizes pelo facto de ele estar bem… Tens razão, não choro mais, é isso! Espero que o meu pequeno príncipe tenha tudo o que é preciso para manter aquele sorriso rasgado saudável e bonito, espero que cresça como é, lindo e meigo… espero que a vida e as pessoas, não estraguem o que de mais belo ele tem, espero que não fique na infância todo aquele sorriso! E que um dia, eu tenha o presente da vida, de o encontrar… Não voltei a falar nele, nem nos meus sonhos de o ver de calções turquesa a correr na charneca, ao colo do Cardoso, a bater sonecas na rede brasileira no meio de nós… guardei para mim, e tento pensar que ela está bem… e que outro Tomás espera por nós…
Depois de enxugadas as lágrimas, fomos assistir ao discurso, várias personalidades políticas da nossa sociedade estavam presentes, algumas apelidadas como amigas da casa… confesso que fiquei desiludida… aquele momento foi usado para campanha eleitoral, para se dizer quem deu mais, quem deu menos, quem pode dar, quem é quem!
No fundo poucos nomes que se disseram amigos da causa, promoveram a resolução do problema das crianças, poucos pegaram ao colo em um daqueles meninos, que anseiam o nosso colo, poucos olharam naqueles olhinhos cheios de sonhos, já fustigados pela dor, pelo medo, pela angústia…
Pensei mais uma vez, que no meu país, a publicidade é tudo, mas a vontade de fazer alguma coisa por convicção, amor ou mesmo responsabilidade social e civil, é tão pequena como as mãos dos bébés que dormiam nas caminhas, enquanto diversas pessoas visitavam as salas da instituição, a correr… quantos de nós, irá fazer algo, quantas daquelas pessoas estão disposta a dar algo de si para mudar o que está errado!
No pátio seguiam os discursos, o grupo juntou-se numa das salas com as crianças de 2 a 4 anos… eram menos do que a outra vez, todos com sede de carinho, atenção, carinho…
Quando me sento naqueles pequenos sofás sinto-me mais perto deles… parece que falamos com os olhares, mesmo que não se diga uma palavra, como a pequena Inês que sentada no meu colo não dizia uma única palavra, não sorria, não chorava… apenas olhava nos meus olhos, e dizia tudo…
No fim do dia, viemos embora a olhar para trás, a pensar que afinal a tal carrinha cheia, era pouco, que havia muito mais para fazer e dizer!
Por tudo o que mais um dia vivi, por tudo o que mais um dia senti, tenho a maior das convicções, que juntos somos muitos, que o nosso pouco pode fazer diferença, e que a única maneira de ajudar, é mesmo participando… Por isso, daqui a nada estamos lá de novo!
E uma nova iniciativa está já a sair!
Com a participação de todos, vamos conseguir esboçar sorrisos, traçar soluções, incutir noções de civismo e quem sabe, um dia, ver o sol nascer sem que nenhuma criança, animal ou adulto, sofra pela irresponsabilidade dos outros…
Conto sempre convosco!


Sandra Duarte Cardoso
publicado por Sandra Cardoso às 14:25

link do post | comentar | favorito
3 comentários:
De Sandra a 22 de Dezembro de 2005 às 18:43
e é complico viver um dia que seja sem te ter por perto amigão!
De Maxo a 21 de Dezembro de 2005 às 17:40
E lá tá o gang todo !!!
é só malukinhos !! mas uns malukinhos com um coração enormeeeeee !!
da-seeeee ke é complikado existir sem todos vós !!!
De barto a 16 de Dezembro de 2005 às 17:45
Obrigado a todos por esta verdadeira lição. Adorei participar. Fiquei mais rico.Mais feliz!!!

Comentar post

.o que se pode saber de mim. O resto é um mistério...

.pesquisar

 

.Setembro 2008

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.as mais recentes alucinações...

. Em frente ao mar que nos ...

. Iris

. vamos fazer alguma coisa?

. Eu e a minha malta... nas...

. Maria dos olhos doces...

. ...

. 2 anos...

. ...

. Intercambio de animais!

. Alvaro Charneca!

.alucinações antigas...

. Setembro 2008

. Fevereiro 2008

. Novembro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

.tags

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds