Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Iris

O suposto artigo da semana, está francamente atrasado… há quantas semanas que não escrevo… Desculpem, mas o tempo não deixa que eu consiga fazer tanta coisa que gosto, e estas palavras tem sido uma das coisas que tem ficado para traz…

O artigo da semana como o Luis lhe chama, é uma espécie de canal da minha alma para vocês, ou do que se passa pela minha alma e que quero partilhar convosco, como se fosse uma espécie de grito no cimo da montanha… Um grito tantas vezes de esperança, tantas outras de desespero, e grande parte das vezes de impotência…

O mundo pouco ou nada mudou nestas semanas que não escrevi, e os nossos animais continuam a ser maltratados, esquecidos, mutilados, a cada esquina, em cada distrito, em cada casa… e nós, pouco fizemos perante tamanho desespero… ou se fizemos muito foi absolutamente anulado, pelas proporções gigantescas que este flagelo atinge a cada minuto… Mas foram poucos os homens que ousaram remar contra a corrente, mas foram eles que mudaram o mundo, por isso, numa espécie de causa impossível, cá vamos continuando, a correr, a chorar, a pedir… já não sei bem o quê!

Hoje vou vos falar de uma cadela especial… Veio o ano passado entre muitos outros animais adultos, do canil, triste, magra, com o desapontamento de ser largado no canil nos olhos… Viu morrer os seus bebes, e deve ter sido por ter engravidado que foi despejada no canil…

Depressa nos cativou pela sua doçura, pela seu frágil corpinho…

Não era um cão fácil de dar, era adulta, magra, em muito mau estado, e tinha aquele tamanho que as pessoas já acham grande por um lado, e não suficientemente grande por outro lado… era a chamada média… O aspecto físico não era atraente, não tinha raça, e já não era fofinha de cachorra… Foi a uma, duas, três campanhas, e no fim do dia, voltava para o canil… Para nosso desespero e dela… Nunca resistiu a entrar na carrinha, nunca esteve de mau humor, nunca deixou de cooperar nas fotos que tirávamos para fazer mais e mais anúncios, e nunca deixou de nos olhar com esperança! Esperança de ser naquela campanha, que ia finalmente encontrar o que tanto procurava… uma família, um carinho, uma casinha… Para ela, o nunca não existiu uma única vez, a partir do momento que nos conheceu, e embora cada um de nós temesse pela sua vida, ela nunca deixou de acreditar que um dia, ia ser a ela que uma família ia escolher e levar para casa!

È difícil esta tarefa que temos… Trazer os animais sem esperança para uma campanha, dar comida, carinho, passar o dia a tentar passar para as pessoas que eles sentem, sofrem e amam… que tal como os cachorros são lindos, e podem ser uns amigos espectaculares!

Mas o difícil, o difícil é acabar o dia e olhar para aqueles focinhos, já com esperança, já alegres, e um a um, voltar a mete-los na carrinha que os leva de volta à prisão, na qual estão sem que tenham cometido um único crime, sem que tenham feito absolutamente nada para merecerem semelhante castigo, sem que tenham desapontado os donos que lá os meteram, e por vezes, sem que tenham sentido o que é carinho, conforto ou segurança… Ao faze-lo sinto cá dentro que estou a trai as suas esperanças, e que os devolvo ao que pensaram jamais voltar…

Pois numa das campanhas, chegou uma família, todos de olhos claros como o céu, que não ficaram presos pelos cachorrinhos, nem pelos de raça, e sem temer o cheiro ou o aspecto da Íris, deixaram as suas filhas abraçarem a Íris, e ficaram os 4 de volta dela… e ela soube naquele momento, que a vez dela tinha finalmente chegado!

E para nossa alegria a Íris foi adoptada, e tornou-se a terceira filha desta família… Apareceu um mês depois, linda, gorda, feliz de rabo no ar, com as suas duas meninas, mãe e pai… Foi nos visitar vezes e vezes, lambia as nossas mãos grata por tanta alegria, e nos olhos dela a tranquilidade e amor tomaram cor… E assim podia escrever agora, que a Íris viveu feliz para sempre. Mas a vida não me deixa escrever isso, porque neste natal a Íris adoeceu, e embora tudo fosse feito, nada resultou, e ela pediu para que a deixassem ir… E no dia 23 de Dezembro… foi embora…

Não sei para onde, nem sei se para melhor, não sei como, não sei nada… só sei que ela soube e sentiu o que é ser amada, e foi uma das adopções que mais tranquilidade e esperança o que fazemos, nos trouxe…

A vida é algo que eu nunca vou compreender! Sinto que já vivi duas vidas, por tantas coisas já ter feito, por tantas coisas ter presenciado, por tantos mundos ter visitado… mas mesmo assim, nunca vou conseguir entender o porque desta organização das coisas, o porque de uns terem tanto e outros nada, o porque de serem os mais inocentes a sofrerem o pior, do porque da humanidade ser tão cruelmente egoísta, egocêntrica e estúpida… Mas a Íris entendeu sempre tudo melhor que eu, e mesmo no fim soube transmitir com o olhar a gratidão e amor que sentia pela família, pela vida, por todos…

Eu não soube o que dizer á mãe, nem ao pai, nem as pequenitas, não soube sequer dizer o que senti, o que pensei, o que chorei… só sei que não é justo, e sei que ainda não sei nada…

Da Íris vou guardar as suas entradas no pelo Alvito, pela mão das suas queridas meninas, pela mão dos pais orgulhosos, e do carinho que sempre espalhou por todos, pelos tratadores do canil, pelos voluntários do SosAnimal, pelas pessoas que passavam por ela, e não conseguiam entender o que é não ter nada e sentir tudo…

A Tania é que a baptizou de Íris, não sei porque, mas quero acreditar que foi pelo facto de ela ser um Arco-Íris de tolerância, carinho e ternura…

Cada vez que vir um arco-íris vou pensar em ti Íris, e em todos os animais que sonham como tu…

 

Somewhere over the rainbow…”

Sandra Duarte Cardoso

 

publicado por Sandra Cardoso às 20:05

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