Sexta-feira, 16 de Março de 2007

Um dia uma cadelinha ensinou-me que…

Os animais dão-me lições de vida constantemente, e por vezes são tão fortes que me sinto simplesmente básica, mesquinha e pequenina perante tamanha bondade…

Todos fomos filhos, pais ou vamos ser… Quase todos marram de frente com o pai ou com a mãe, outros simplesmente não se identificam, outros chegam ao odio e outros vagueiam no desprezo…

No entanto há pais que marram mais ainda com os filhos, porque não se identificam, porque queriam que fosse advogado e é musico, outros porque querem freiras e têm umas assanhadas em casa, outros porque francamente devem andar fartos da porcaria de vida que têm, e como não deve haver mais nada à mão, embirram com os putos ou com as esposas que casaram porque já estavam grávidas, ou porque queriam criadas e não tinham como pagar…

Estes são os casos que mais aparecem, outros chegam mais longe, aliás mais baixo, batem nos filhos porque tem dependências, porque tem problemas mentais que não resolvem ou que trouxeram de recalcamentos infantis e transportaram até se tornarem adultos amargos e maus…

Infelizmente o que mais se vê são pais e mães que batem nos filhos, que os assassinam à pancada, com requintes de malvadez, que os molestam, e que por vezes fazem isto tudo e eles vivem para além do que é possível viver na dor e no sofrimento…

Tenho a tendência de pensar nos animais e nas crianças juntos, pelo facto de ambos não terem voz ou maneira de se defenderem dos adultos, dos “maus,” como eu dizia em criança… Quando o meu pai dizia para não falar com os estranhos, explicava que alguns eram “maus”! Então ficaram os maus, todo e qualquer personagem que na minha imaginação representassem perigo era um “MAU”!

Em crescida acrescentei à lista mais uns termos, porque percebi que existem diversos tipos de maus e necessitei de alargar o vocabulário para os insultar sempre que posso!

Infelizmente os “maus” na sociedade não são todos facilmente identificáveis, e nem todos tem ar de alucinados ou bizarros!

Alguns, são senhores e senhoras que vestem Prada, que moram perto das nossas casas e que aparentemente são cidadãos exemplares… É o mundo Apolineo no seu melhor, encarceraram o Baco nas masmorras, e disfarçaram a maldade com a beleza e luxo.

Não quero com isto dizer que os maus são todos bem vestidos, existe por ai cada matarruano mau, tchii, são tão maus como tem falta de gosto…

O que eu quero dizer, é que na nossa sociedade tudo é disfarçado… Ou seja a porcaria existe, está é tapada em alguns casos, com lençóis de seda….

No mundo animal a coisa é basicamente igual ao que sempre foi… Talvez por isso se chame frequentemente aos gatos que não se deixam apanhar na rua de selvagens!

A Ema é uma cadelinha que permaneceu na rua durante meses com uma pata literalmente presa por pele… foi cortada ou entalada em algo muito forte e a sua patinha ficou quase desfeita… Vivia na rua, entre um passeio e outro, mas era feliz…

Pensam vocês, feliz, sem ter casa, sem ter comida, sem ter quentinho…. Com uma pata meia desfeita, a agonizar de dores, com uma infecção. Tchii , que lista!

Pois, mas era! Quando a fomos socorrer, vi nela um olhar tão triste… pensei que era das dores, da pata estar naquele estado horrível…

Pois bem, a Ema foi levada para um Hotel e foi assistida por um veterinário que tenta a todo o custo salvar a patinha, tinha uma caminha fofa, tinha comida, tinha carinho, tinha segurança, e as dores foram aliviadas por fármacos… Mas a Ema, não era feliz, e para nosso desespero fugiu do hotel e andou 3 dias desaparecida… Fui dar com ela num jardim depois de Caxias, perdida de cansaço, com a pata super inchada… tinha vindo de Barcarena até ali a pé…

E sabem porque? Porque nessa rua onde ela vivia perto de Oeiras, onde não tinha quase nada, tinha a razão da sua existência, tinha o seu filho, já cachorrão que lhe trazia comida dos caixotes do lixo, que partilhava com ela todos os pedacinhos de comida que conseguia do lixo, que partilhava com ela o sol, a chuva o frio e o calor, que partilhava com ela o AMOR, puro, desprovido de tudo e de todos, numa rua, perdida no mundo, que gira sem se importar com os que sofrem, com os que gritam de medo e de terror, com os que vêem morrer os que amam…

O filho, tinha ficado no mesmo sítios, porque além de não estar lá no dia que recolhemos a Ema, não tínhamos como suportar as despesas do hotel dele, nem espaço para o colocar… Com a esperança de resolver rapidamente esta situação, pensamos que o importante era tratar da Ema…

Mas o importante para a Ema era estar com o filho, com a razão de viver, e rasgou a vedação, saltou um muro de 2 metros e andou quilómetros e quilómetros de estrada, em busca daquilo que mais ama, o filho…

O Filho por sua vez desapareceu logo que recolhemos a mãe, e sabemos hoje que veio em busca dela…

Quem de nós teria coragem para tanto… quem de nós suportava tanto por amor… quem de nós conhece um amor assim….

Conhecem eles, e hoje já sabemos onde ele está, e já disse ao ouvido da Ema que falta pouco para estarem juntos, tal como ambos tanto anseiam!

A Ema recupera da pata aos poucos, e agora tem uns arranhões no nariz, feitos nas diversas diligencias que faz diariamente na esperança de voltar a escapara e ir ao encontro dele…

Sou racional, e sei que a nossa linguagem não faz totalmente sentido para os cães, mas quando cheguei ao hotel esta semana, ela veio mostrar a pata, como se disse-se “estou boa, deixa-me ir”, e quando a encostei a minha cara e lhe disse que sabia onde ele estava e faltava pouco para estarem juntos, senti…que ela percebeu, e agradeceu…

O que ela me ensinou, foi que o amor pode existir em situações extremas, e quando é puro vale por tudo! O que ela me ensinou é que ser mãe, não é ter filhos para os vestir de Gant ou para ansiar que eles sejam o que não fomos capazes de ser, nem para solidificar relações amorosas, em sequer para cumprir o dever da procriação, e para parar de ouvir as mulheres mais velhas, a dizerem, então quando é que te vejo de barriga! Ter filhos é amar, proteger e partilhar… até as mais pequenas coisas, como olhar o céu e dizer que o mar é lindo…

Um dia quando for mãe, com ou sem barriga, vou dizer aos meus ANÕES (termo que utilizo para descrever os miúdos pequenitos), que não sou a mãe deles, sou a que os ama como a Ema ama o Gandor, e conto esta historia….

 

Um dia, uma cadelinha ensinou-me mais isto…

Sandra Duarte Cardoso

Lisboa, 15 de Março de 2007

Sandra.cardoso@sosanimal.com

www.sosanimal.com

publicado por Sandra Cardoso às 20:17

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Terça-feira, 6 de Março de 2007

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publicado por Sandra Cardoso às 19:34

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.o que se pode saber de mim. O resto é um mistério...

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