Terça-feira, 23 de Agosto de 2005

Gastão Maria...

Gastao.JPG


Era uma vez um cão… talvez um cão como nós, ou um cão bem melhor que nós, se o nós formos todos e não só alguns…
Um cão, meigo, terno… que um dia teve uma família, alguém que lhe disse que era seu dono… alguém que o quis, por ser um cão lindo, rotulado raça da moda… talvez o mais lindo da sua raça, talvez o mais feio, quem sabe o melhor, o mais especial…
Mesmo lindo e especial, foi parar ao canil, onde tantos outros cães lindos e especiais permanecem abandonados… são entregues pelos donos com as desculpas mais estúpidas possíveis e impossíveis, são apanhados perdidos na rua, feridos, mordidos, atropelados, queimados, cortados, mutilados, violados, cegos, doentes, tristes, todos complemente confusos, porque jamais podem entender, o porque de isto acontecer!


Mas hoje vou falar deste cão, especial… não como nós, melhor que nós…
Numa das muitas tortuosas visitas ao canil, dei de caras com ele, deitado em 1m2 quando tinha mais que um metro e cerca de 40 kl de peso, triste com feridas, e a desistir de viver… fiquei em pânico, apelei por onde pode, e foi informado que fora entregue pela mãe do dono… por lei só ao fim de 8 dias, poderia ser adoptado ou resgatado do canil…
Começou o apelo do costume, quem o quer, quem pode, a onde, quem, quem, quem???


O Pedro deu de caras com o cão, ficou também ele em pânico, gritava ao telefone, (…)” não pode lá ficar Sandra, não pode, temos que o tirar de lá… que fazemos, que fazemos… (…)”…. (…)“Não sei Pedro… não sei…” (…) ao fim dos 8 dias, gritou no telefone que tinha arranjado um dono… mas ele já estava mal, os donos tiveram medo, e ficamos sem saber o que fazer… mas para o canil não voltava, e foi lá para casa…


Foi o inicio de uma relação especial, nós e ele… o nosso menino…. Gastão Maria, foi o nome eleito entre tantos outros, Baltique, Adónis, chumbado pela Rita Silva que alegava ser demasiado gay… Não tive tempo de saber as opções sexuais do meu cão, mas optamos por lhe dar um nome conservador, Gastão Maria! Assentou que nem uma luva, o Pai concordou e ele aceitou imediatamente!


Infelizmente o Gastão não ficou na família Cardoso para sempre, estava demasiado doente, precisava de tantas coisas, de alguém a tempo inteiro, de médicos, medicamentos, tudo, e mais alguma coisa…


Enquanto esteve por lá, saia com ele e passeava horas no jardim, na rua, já sabia o caminho, esperava à porta do super mercado por mim, era conhecido entre as pessoas do Marquês… à noite fazia sucesso, Meninas e Senhoras que trabalham no Conde Redondo, faziam uma festinha e gabavam o seu porte altivo e majestoso… Era realmente nobre e especial…
O seu lugar de eleição era na sala de estar ao lado do sofá… Todos gostavam dele… o Tristão e a Maggy estavam ciumentos, mas também gostavam, era o mano MAIS GRANDE!!!
Estava receosa, a tosse não passava, as feridas não fechavam… mas ele parecia estar bem, quando íamos dar as nossas voltas ia contente, chamava por mim, abanava a calda… era o meu cão!


O Hugo disse que ele tinha o mesmo cheiro, que uma cadela que ele tinha, e que morreu com esgana! Fiquei furiosa, disse que ele era estúpido, o meu cão estava bem, e ia-se safar, para ficarmos juntos…


O Hugo tinha razão! O Gastão, teve de ser abatido na segunda-feira, enquanto eu estava longe, não estive com ele no último minuto, esteve acompanhado, mas não por mim…
Ele não queria ir embora, estava apreensivo… queria morrer na nossa casa! E eu não lhe dei isso… não sei se falhei, ou se ando sempre a falhar… só sei que queria lá estar com ele, até ao fim!
E não estive… e com essa vou ter de viver, já sem ele!
Encontrei no domingo um pedaço do teu pelo… bateu tanta saudade… tenho tantas saudades tuas…
Não entendo a vida, não percebo a morte, não aceito as coisas… gosto de nadar, mas os braços ás vezes doem tanto…



P.S Mensagem para o Gastão, do Pai…
Gastão, estas palavras são para ti................ Ontem partiste e não tive oportunidade de te dizer que me apaixonei por ti, que me comoveste desde o primeiro minuto que te vi.
Estavas ali prostrado, agrilhoado com o olhar perdido, indiferente, triste, de alguém que já nada esperava desta vida.
Não foi preciso muito para te tirar daquele lugar tenebroso, ou se calhar foi tempo demais.....
Arranjei-te a melhor mãe do mundo, foi bom passear-te, eu tu e ela naquele jardim, eu mais ausente e ela sempre presente.
Não te voltei a ver desde esse dia, foste adoptado por uma família que se encantou contigo e prometeu dar-te tudo aquilo que te tiraram: amor, carinho e muito colinho.
Acompanhámos a tua curta jornada, ela chorava e eu preocupava-me..........
Parecia que tudo corria bem, que estavas a abraçar de novo a vida, depois parecia que estava tudo mal e que te querias despedir............. Foste um lutador Gastão, quero acreditar que antes de partires tenhas feito as pazes com a Humanidade que tão mal te tratou, que te jogou no lixo como se já não prestasses, espero também que a tua partida tenha sido calma, sem medos, sem sobressaltos e que tenhas tido até ao teu último segundo uma mão que te acariciasse e te dissesse que tudo iria ficar bem................... Gastão, quero te pedir-te um último favor, nunca te esqueças de nós nem do amor que por ti tínhamos e lembra-te, sempre que nos quiseres visitar, já sabes, estamos no lugar de sempre, de onde nunca saímos, no lusco fosco, onde a noite se confunde com o dia, naquela hora mágica quando fechamos os olhos e partimos para um mundo encantado, para o jardim, tu, eu e ela a passear-mos.


publicado por Sandra Cardoso às 11:39

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7 comentários:
De vcb a 30 de Agosto de 2005 às 12:06
Que aperto no coração... Vcs falaram-me no Gastão qd estavamos no Algarve e a partir daí e passou a ser um pouquinho meu também... os nossos olhos perscrutaram em busca de Goldens que passeavam em Lagos. E até vimos um irmão e sei que todos pedimos internamente para que o Gastão tivesse a mesma sorte desse irmão...
Onde quer que estejas agora, vais ser feliz, Gastão. Nem te será dada a conhecer a crueldade, nem mesmo as portas do Supermercado te serão vedadas. Corre livremente e ajuda-nos a cuidar dos que como tu, cá ficaram a suportar o fardo que assumiram de serem o fiel amigo.
De Sandra a 23 de Agosto de 2005 às 18:37
Obrigada por leres...
De Sandra a 23 de Agosto de 2005 às 18:36
Que lindo Teresa... não te sabia dada à poesia... pensava que eras mais uma dada aos números... mas gémeos é sempre gémeos...
Obrigada, sabes é a poesia que vou buscar muita respostas ás minhas perguntas...
De Teresa a 23 de Agosto de 2005 às 17:30
"Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias."

Sophia de Mello Breyner Andresen (Poesia)
De vera a 23 de Agosto de 2005 às 14:47
Olá Sandra, fiquei muito sensibilizada com o que li tb eu já tive um desgosto assim so que o meu cão ou seja a minha cadela morreu nos braços da minha mãe e nada poderia ser mais doloroso, peço desculpa se nisto faço pecado mas custou-me mais do que teria sido com alguns seres humanos que conheço. Hoje tenho 4 cadelas mas nenhuma preenche o lugar que a "Pitufa" (assim foi batizada)deixou. E sabes qual o meu maoir desgosto é não ter dinheiro o suficiente para abrir um canil para recolher todos os animais que não abandonados aqui na minha zona por caçadores inconscientes. Obrigado por partilhares a tua historia. Bjs
De Baltique a 23 de Agosto de 2005 às 14:29
Gaja,

já me encheste os olhos de lágrimas, engraçado
sempre que olho para ele fico triste, é o expoente da minha tristeza, mas tb
fico contente por ter kuaseeeeee a certeza que ele está bem, num lugar especial
como ele ...................
De Baltique a 23 de Agosto de 2005 às 12:01

:( :( :(

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.o que se pode saber de mim. O resto é um mistério...

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